segunda-feira, 12 de outubro de 2015

CAPÍTULO 14

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            - Estou surpresa que eu ainda consigo caber no meu tamanho normal, depois de todos aqueles hambúrgueres de ontem à noite - comentei enquanto saíamos de uma das lojas de vestidos.
            - Nem me fale. - Brittany riu. - Mas valeu à pena, né?
            - Sempre vale à pena. - Hesitei. - Vocês costumavam ir muito lá quando eram crianças?
            - Nem tanto quanto a gente gostaria de ter ido. - ela olhou para mim. - O Zac te contou sobre a infância dele? - Fiz que não.
            - Quase nada.
            - Foi o que eu pensei. Ele não gosta de falar sobre o assunto. Acho que é o jeito dele de lidar com isso. - ela ficou em silêncio por um momento. - Eu não quero dar a entender que a nossa vida familiar era algum tipo de filme de terror. Na verdade não foi tão ruim assim. Mas às vezes era difícil. No início, a gente não tinha muito dinheiro pra gastar por aí. A primeira vez que o nosso pai levou a gente no Jerry’s Grill foi porque chegamos da escola mais cedo, deu um problema nos dutos de gás ou alguma coisa assim, eu não lembro direito agora, e pegamos ele com outra mulher. Aí ele prometeu que se a gente ficasse de boca fechada, ia nos levar pra comer hambúrgueres. E como eu e o Zac éramos dois pestinhas, é claro que continuamos exigindo voltar lá toda vez que a gente não estava feliz ou quando ele fazia algo que a gente não gostava. Eu me sinto péssima por isso agora. Tenho certeza que o Z também. Mas, na verdade, a gente nem sabia o que estava fazendo naquela época. Crianças são egoístas. A gente só queria jantar alguma coisa que não viesse numa caixinha da loja de descontos. Eu não tenho ideia de como o meu pai juntava dinheiro pra levar a gente lá, mas ele dava um jeito. A minha mãe nunca descobriu, até onde eu sei. Acho que foi melhor assim. Eu não sei se o meu pai continuou fazendo aquilo. Os dois eram jovens e agora eu percebo que nem tenho certeza se algum dia eles se amaram de verdade. Podia muito bem ter sido um casamento forçado. Durante anos, eu evitei relacionamentos próximos por causa do exemplo que eles me deram. Ainda bem que eu conheci o Ryan. Ele ficou do meu lado mesmo quando eu tentei afastar ele da minha vida. - seus olhos estavam bem distantes enquanto ela falava. Ela virou-se para mim. - Tenho que dizer, eu fiquei muito feliz quando o Zac me contou que tinha encontrado alguém. Eu tinha medo que isso nunca acontecesse com ele. Acho que a situação toda afetou mais ele do que eu. É difícil acreditar no amor, vindo de um passado como esse.
            - É – apoiei, sem saber o que dizer - Acredite, eu sei como é. Quer dizer... Não sei se os meus pais já traíram um ao outro, mas com certeza eles não se amavam. - Brittany concordou.
            - Tem muita coisa desse tipo por aí, né? Pessoas se casando por várias razões, menos pelas certas.

Nem me fale. Queria tanto contar para ela, mas apenas para desabafar a verdade. Mas eu sabia que não conseguiria lidar com a maneira como ela ficaria chocada, percebendo que, na verdade, Zac não havia encontrado o amor verdadeiro. Eu precisava deixá-la acreditar que éramos felizes juntos, pelo menos por um tempinho. Fiquei aterrorizada ao perceber que lágrimas estavam acumulando-se no canto dos meus olhos. Forcei-as a voltar, engolindo em seco e continuando a caminhar.

            - Mas então - Brittany continuou a conversa. - Chega dessa baboseira deprimente. Você já escolheu o lugar?
            - Não - admiti. - Pra ser sincera, eu tenho adiado tudo, é que é tanta coisa, mas eu sei que quanto mais tempo eu esperar vai ficar mais difícil.
            - É pra isso que estou aqui! - exclamou Brittany. - Por que é que a gente não volta pro apartamento e começa a procurar uns lugares na internet? É melhor a gente reduzir as nossas opções antes de dirigir pelo estado todo procurando o lugar perfeito.

Voltamos ao apartamento de Zac e senti-me grata pela chave que ele me havia deixado. Enquanto passávamos, o porteiro sorriu e acenou mostrando nos reconhecer. Quando entramos, Brittany foi direto para a geladeira e serviu-se de um copo de suco. Ela sentia-se infinitamente mais em casa do que eu.
           
            - Então, onde o Z deixa o laptop?- ela quis saber. Ai, que merda.
            - Hum... é difícil dizer, ele meio que leva pra todos os lugares com ele - menti. Meu Deus, eu não fazia ideia.
            - Bom, então a gente vai ter que procurar. Por que você não olha no quarto? Eu vou procurar aqui embaixo.

Já estava no meio das escadas quando me lembrei do quarto de hóspedes, claramente habitado lá embaixo. Merda, merda, merda. Eu tinha que continuar. Não podia agir de forma suspeita ou como se estivéssemos escondendo algo. Se ela dissesse alguma coisa, eu explicaria que não estava acostumada a dormir na mesma cama que outra pessoa? Talvez? Ai, meu Deus, será que eu conseguiria dizer isso séria? Meu rosto já estava queimando.
Vasculhei o quarto cegamente. Poderia haver dez laptops aqui e eu nem teria notado. Desci lentamente as escadas, de mãos vazias, e vi Brittany no meio do corredor, parecendo confusa. Tomara que seja apenas porque não havia encontrado nada. Ou... Não.

            - Ei, vocês receberam alguém esses dias? - ela indagou. Tentei fingir que estava confusa por um momento.
            - Ah! Você está falando do quarto de hóspedes? São as minhas coisas que estão lá. - minha própria voz soou como um eco estranho e distante em minha cabeça. Meu coração estava palpitando. - É que eu não estou acostumada a dormir na mesma cama com outra pessoa, sabe? - houve um instante de silêncio.
            - Ah, é claro. Eu também era assim com o Ryan no início. Nunca passei a noite com ele quando a gente começou a sair. O que deixava ele louco.
            - Que bom que você sabe do que eu estou falando. - senti meu nível de ansiedade diminuir um pouco. - Algumas pessoas achariam estranho. - ela fez um gesto de desdém.
            - Não se preocupa com isso. Ou com o que quer que seja. Teve sorte lá em cima?
            - Não - respondi. - Mas vou procurar de novo. Na verdade, eu esqueci de olhar no armário. Ele deixa a capa do laptop lá, talvez esteja dentro. - não fazia ideia se isso era verdade, mas eu precisava de uma desculpa para voltar e realmente procurar no quarto agora que meu cérebro estava funcionando de novo.
O que foi bom. Estava na cômoda, bem à vista. Brittany pensaria que eu era a pessoa mais maluca do mundo. - Achei - gritei, descendo as escadas.
            - Ah, fantástico. Vamos ver o que a gente consegue encontrar.

Rapidamente, fizemos uma lista de todas as lojas de casamento que encontramos na cidade inteira.
Minha cabeça estava ficando cheia, mas Brittany parecia estar digerindo muito bem as informações, fazendo várias anotações em um bloquinho que ela tirou não sei de onde. Parecia ser outra coisa de família.

            - Então tá - ela disse após o que parecia ter levado horas. - Eu eliminei todos os lugares que definitivamente a gente não vai querer, o que nos deixa com umas vinte opções. Eu, pessoalmente, sou uma grande fã da galeria de arte. Você já foi lá? - fiz que não. - Nós temos que ir - ela animou-se. -Eles estão fechados hoje, mas a gente tem que ir o quanto antes. O lugar é absolutamente maravilhoso. Claro que você precisa contratar o serviço de bufê caríssimo deles, mas eles cuidam de absolutamente tudo. E não cobram taxa de corte do bolo. - ela virou os olhos.
            - Taxa de corte do bolo? - Olhei para ela. - Isso... Isso existe?
            - Acredite. Eles vão cobrar cada centavo que puderem por tudo nesta indústria. Você precisa ficar esperta - ela afirmou.

Havia tanta coisa que eu não sabia e simplesmente não tinha o desejo ou motivação para descobrir.
Não sei o que faria sem a Brittany. Acho que contrataria uma assessoria de casamentos. Quase esqueci por um instante que era bem fácil resolver este tipo de problemas apenas gastando mais dinheiro com eles.
           
            - Brittany, posso te perguntar uma coisa sobre o que a gente estava conversando antes? - questionei, ajeitando-me no sofá
            - É claro. O que você quer saber?
            - Você disse que quando vocês eram mais novos, não tinham muito dinheiro. O que foi que mudou?             - Você não vai acreditar quando eu contar. O papai ganhou muito dinheiro no cassino. – ela disse rindo - Muito mesmo. Eu ainda acho que ele estava fazendo o possível pra perder tudo o que ele tinha no jogo, a nossa mãe tinha acabado de falecer e, apesar de tudo, acho que ele não sabia o que fazer sem ela. Mas em vez de perder, ele ganhou o maior prêmio que já pagaram pra alguém. As fotos dele ainda estão na parede, se você for lá, um cara desajeitado usando camisa de flanela e macacão, segurando aqueles cheques enormes como se fosse uma sentença de morte. Depois disso, ele mudou completamente. Ele podia ter gastado tudo, mas em vez disso, ele foi ao centro da cidade e entregou uma pilha de dinheiro pra um planejador financeiro. Eu nunca soube que ele era assim, mas acho que ter todo aquele dinheiro o deixava assustado. - ela respirou fundo. - Depois de alguns bons investimentos, a gente já estava se mudando pra uma casa mais bonita num bairro muito melhor e, de repente, a gente não precisava mais ficar torcendo e rezando por bolsas de estudo e implorando pelas merrecas dos programas federais. A gente podia ir pra qualquer faculdade que quisesse. Depois de todos esses anos, eu ainda lembro como essa época foi estranha. Era como se eu estivesse sonhando acordada. Sabe? - Eu sabia. Sabia muito bem.
            - Uau - exclamei.
            - Uau é a palavra certa. - Ela levantou-se. - Embora eu ache que você está mais do que familiarizada com esse sentimento.
            - É, passar de todos os meus cartões de créditos estourados e contas atrasadas pra isso...

Falando nisso, meus cartões de crédito ainda estavam estourados e algumas contas ainda estavam atrasadas. Tenho estado tão ocupada em ajustar-me à minha nova vida que esqueci completamente de perguntar ao Zac sobre a possibilidade de cuidar de algumas das minhas necessidades financeiras mais imediatas. Era algo que eu provavelmente deveria fazer.

            - Eu sei - ela assentiu, colocando a mão no meu ombro. - Vai ser estranho no começo, mas você vai acabar se adaptando. E você não precisa se tornar uma daquelas pessoas detestáveis nascidas em berço de ouro, que usam terninho pra ir ao clube de campo e gritam com as faxineiras. Apenas mantenha a cabeça no lugar e você vai ficar bem. - sorri imaginando o que ela disse.
            - Obrigada. Mas eu posso pelo menos ter um cachorrinho para carregar comigo?
            - Você pode ter tudo o que você quiser, querida. - Ela sorriu. - O mundo está em suas mãos agora.

****
Ryan teve que voltar para o trabalho, então nós quatro visitamos a galeria de arte na segunda-feira de manhã e nos despedimos. Brittany tinha razão, era maravilhosa, com um salão enorme que eles indicavam para a cerimônia repleta de esculturas e estátuas históricas. Ficaram surpresos quando Zac disse que queria agendar “o mais rápido possível”, mas eles só conseguiram uma data para daqui um mês. Ele fez um depósito, mas não me deixou olhar a quantia total. Brittany deixou-me páginas e páginas de anotações. Zac já tinha dado a Emma a tarefa de encontrar um vestido para mim, e eu escolhi uma padaria que fazia um bolo bonito e gostoso. Mesmo com todos os preparativos em andamento, a coisa toda ainda não parecia muito com a vida real. Mas eu tinha certeza que iria ajustar-me. Com o tempo.
Meu último dia de trabalho foi na sexta-feira e Zac perguntou-me durante o almoço se eu queria que ele contratasse um serviço de mudanças. Como sempre, ele estava dez passos à frente. No alvoroço dos preparativos para o casamento, esqueci que também deveria mudar-me para seu apartamento imediatamente após a cerimônia.

            - Não, tudo bem - falei. - Eu não gosto muito de pessoas estranhas tocando as minhas coisas.
            - Então pelo menos deixa eu te ajudar. - ele pareceu realmente se importar.
            - Deixo sim, claro. Obrigada. - Afinal, ele não era um estranho. Ele era meu noivo. Um pensamento passou-me pela cabeça.  - Ei, a gente vai tipo... ter uma lua de mel ou algo assim?

            - Deixa isso comigo! - O canto de sua boca curvou-se em um sorriso de quem esconde um segredo. 

Um comentário:

  1. Aaahh ja estou ansiosa para o casamento destes dois. Bjosss posta mais logoo

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