domingo, 18 de outubro de 2015

CAPÍTULO 20

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Na manhã seguinte, desci até a cozinha com um sorriso no rosto. Zac retribuiu meu “bom dia” meio Distraído.

            - A noite passada - ele falou. - Nós não podemos deixar isso acontecer de novo.
            - O que você quer dizer? - Eu sabia exatamente o que ele queria dizer, mas não queria acreditar.
            - A gente não pode embaralhar os limites. Isso é um acordo de negócios. É uma má ideia deixar as coisas ficarem confusas desse jeito.
            - Eu pensei que você tinha concordado que isso não importava. - Seus olhos pareciam tristes, mas determinados. Eu sabia que não conseguiria convencê-lo, mas não iria perdoar-me se eu não tentasse.
            - Nessa. Desculpa. Eu sei que tem sido divertido. Não é nada pessoal. Você é muito linda. Eu me diverti quando a gente estava... Junto. Mas isso não pode continuar. A gente tem que se controlar.

Queria gritar. Queria brigar com ele, mordê-lo e chutá-lo, jogar coisas nele, queria fazer todas as coisas irracionais que me vinham à cabeça, mas em vez disso fiquei apenas ali, bem parada, olhando para ele.
Concordando. Ele observou-me por um instante, esperando pelo pior. Mas eu não daria esse gostinho a ele.

            - Tudo bem - falei, com a voz mais neutra que consegui. Saí e desapareci no meu ateliê, onde comecei a rabiscar tão forte em um bloco de papel que rasguei cinco folhas antes de parar.

Depois disso, as coisas ficaram bem silenciosas. Mal nos falamos, ficávamos nos evitando pela casa e dormindo bem longe um do outro. Ainda bem que a cama era enorme. Eu estava começando a pensar que as coisas ficariam assim para sempre, bem, não para sempre. Pelo resto do ano, de qualquer maneira.
Passei a temer os fins de semana. As coisas não eram tão ruins quando eu estava sozinha, mas eu não conseguia nem me concentrar na minha arte quando ele estava no apartamento.
Felizmente, ele começou a passar cada vez mais tempo fora de casa, mesmo quando não estava trabalhando. Nunca perguntei onde ele andava. Às vezes, ele nem havia chegado quando eu ia para a cama.
Em uma segunda-feira de manhã, desci e vi que ele ainda estava na cozinha. Merda. Era feriado.
Tinha esquecido completamente. Tentei desviar o olhar e ir direto para a geladeira, mas conseguia senti-lo olhando para mim e sabia que ele estava prestes a dizer algo. Ele então perguntou deliberadamente:

            - Será que é muito difícil pra você lavar a louça que você usa? - Bati a porta da geladeira.
            - Você está falando da única tigela que eu deixei na pia a noite passada?
            - E dos copos na noite anterior, e dos pratos antes disso - Ele bateu a xícara de café na mesa. - Tem sempre alguma coisa. Eu não acho que é insensato da minha parte esperar...
            - Eu tinha deixado de molho! - encarei-o.
            - Não precisava deixar - ele rebateu - se você lavasse assim que terminasse de usar.
            - Ai, meu Deus. Não acredito que a gente está tendo essa conversa. - Ele suspirou.
            - Eu estou apenas tentando facilitar a nossa convivência.
            - Não, você está tentando facilitar pra você conviver comigo.
            - Fique à vontade pra me falar se tem alguma coisa que eu possa fazer pra facilitar a sua vida – ele disse, no tom mais neutro possível.
            - Ah, é? - Cheguei mais perto dele. - Eu fico feliz que você tenha tocado no assunto. Que tal me tratar como um ser humano? E não ficar agindo como se nunca tivesse acontecido nada entre nós?
            - Você quer mesmo ter essa conversa de novo? - Ele olhou para mim malignamente.
            - Quero - respondi. - Quero mesmo. Porque eu quero saber que raios há de errado com você.
            - Que raios há de errado com você? - ele retrucou. Ele levantou-se, com um músculo em sua mandíbula contraindo-se. - Você não entende o que está acontecendo aqui? Você não vê como isso é difícil? - Por um momento, ele parecia louco, com os olhos girando de um lado para o outro como se estivesse procurando as palavras certas. - Estar perto de você, o tempo todo, ver você o tempo todo, dormir ao seu lado... Pelo amor de Deus, Nessa. Será que você só pensa em si mesma? Você é assim tão egoísta? - Recuei. Suas palavras machucaram. Quis insistir que eu não sabia do que ele estava falando, mas é claro que eu sabia.
            - Sinto muito - falei, por fim, bem baixinho. Podia ouvir minha voz tremendo. - Eu não percebi que estava te pressionando desse jeito. - Sentia-me furiosa, mas para minha completa humilhação, isso estava expressando-se em lágrimas quentes saindo pelos cantos dos meus olhos e escorrendo pelo meu rosto.
            - Não foi isso o que eu disse. - Zac parecia completamente derrotado, desmoronando em um dos bancos. - Você sabe que não foi isso o que eu disse.
            - Não, você acabou de dizer que eu era egoísta. E que só pensava em mim mesma. - Minha voz estava abafada pelo choro, e eu odiava como ela soava. - Isso é muito melhor.
            - Desculpa - ele disse, não parecendo estar mesmo se desculpando. - Mas você sabe o que eu quero dizer.
            - Tudo bem. - Já estava cheia de toda essa conversa, eu não ia ficar ali olhando sua estúpida expressão indecifrável enquanto chorava como um bebê. Era humilhante. Virei-me para ir ao andar de cima, e para meu tormento, ele me seguiu. - Será que você pode me deixar sozinha?
            - Não até que você concorde em parar de brincar comigo - ele disse, com a voz neutra. Eu estava brincando com ele? Ah tá, essa é boa.
            - Claro - falei, cheia de sarcasmo. - Garanto que eu vou parar com isso. - Abri a gaveta de cima da cômoda, procurando por algo, qualquer coisa, só para parecer ocupada e não ter que olhar para ele.
            - Eu estou falando sério, Nessa - ele disse. - A gente não pode continuar fazendo isso. Eu não posso continuar fazendo isso. - olhei em sua direção, com um punhado de jóias na mão. Não fazia nem ideia porque estava mexendo em minha caixa de jóias, para começar.
            - Tá, tudo bem! Que se dane! - gritei. - Vou deixar você em paz! Juro por Deus, que eu nunca mais vou rebolar a bunda na sua frente de novo! - Ele recuou, um pouco. Que bom.
            - Desculpa - ele disse, novamente. Dessa vez parecia que ele estava mesmo querendo desculpar-se, um pouco. - Se eu te iludi. - Ah, ótimo, a clássica desculpa do “se”. Mal era uma desculpa de verdade. Eu podia sentir meu lábio curvando-se para uma rosnada; não me lembrava de já ter ficado tão brava assim em toda a minha vida.
            - Você está falando da incrivelmente adorável lua de mel? - Meu tom estava venenoso. Mal reconhecia minha própria voz. - De todos aqueles presentinhos? O carro, as roupas, aquela merda toda?
Tudo o que você daria pra uma mulher que amasse de verdade? Bom, pode ficar com tudo, Z. Eu estou pouco me lixando!

Arremessei tudo o que estava na minha mão em sua direção. Ele esquivou-se, e algo voou em sua orelha; quando as coisas atingiram a parede oposta percebi que eram algumas das primeiras coisas que ele havia comprado para mim – o colar e os brincos para combinar com meu vestido azul, aqueles que eu tinha gostado tanto, agora jogados em um amontoado no tapete. A campainha tocou lá embaixo.

            - Meu Deus - Zac murmurou, descendo as escadas, massageando a orelha. Segui-o, irresoluta. A mudança repentina havia acabado com todo meu ímpeto, e eu quase nem sentia mais vontade de brigar. Fiquei ao lado, no entanto, não querendo ser vista em meu estado atual. Zac abriu a porta.
            - Sr. Efron? - A voz parecia vagamente familiar e por alguma razão, meu coração quase saiu pela boca. Houve um silêncio.
            - Sim - ele disse, impacientemente.
            - É o Jordan Camry - disse a voz. - Do INS. Posso entrar?

Queria virar-me e sair correndo, mas senti como se meus pés estivessem colados ao chão. Então apenas fiquei ali, olhando em silêncio, enquanto o mesmo homem que me questionou sobre nosso relacionamento entrava pelo corredor, como se tivesse algum direito de fazer isso.  Ele olhou para mim, cumprimentando-me educadamente. “Srta. Efron,” ele disse para minha cara de quem havia acabado de chorar.

            - É sobre a entrevista? - Zac questionou, finalmente recuperando a voz. Sr. Camry olhou para ele. - Não - ele disse, por fim. - Mas foram levantadas algumas questões sobre a validade do seu casamento. Nesses casos, uma visita não agendada é de costume. Claro, você tem o direito de recusar. Mas se fizer isso, outras medidas serão tomadas.
            - Não - disse Zac. - Você pode... Fazer o que precisa.
            - Um de vocês pode me mostrar os cômodos da casa? - ele perguntou.

Zac fez que sim, indo adiante. Eles entraram nos quartos de hóspedes primeiro, inclusive no meu ateliê – ainda bem que eu estava dormindo na cama do Zac – enquanto meu marido tagarelava mecanicamente em cada parada. Sr. Camry concordava, fazendo anotações. Eles desapareceram lá em cima por um tempo, e então voltaram.

            - Obrigado - Sr. Camry disse, apertando a mão de Zac. - Agradeço a sua cooperação. Eu certamente vou incluir isso no relatório. - Ele saiu pela porta e eu respirei. Percebi que ele deveria ter ficado lá apenas por alguns minutos, mas pareceram horas.
            - Que porra foi essa - falei, enquanto Zac virava em minha direção, com os olhos furiosos. Mas não comigo, dessa vez.
            - Alguém deve ter dito alguma coisa. Alguém deve ter contatado. Eles não fazem isso com qualquer um. - Fomos até a sala de estar, pensando sobre aquilo, ambos sentados no sofá com a mente a milhão.
            - A Lisa? - Ele balançou a cabeça.
            - Ela nunca faria isso! - afirmou categoricamente.

Estava claro que isso era o fim da discussão. Ah, tudo bem. Se ele não queria considerar essa possibilidade, eu certamente não o faria mudar de ideia. Minha mente continuava a milhão, pensando em todas as pessoas do escritório que poderiam ter uma razão para suspeitar. Quanto ao motivo, eu não tinha certeza. A INS oferecia algum tipo de incentivo? Ou teriam nos entregado por razões puramente pessoais? Espere um minuto. Sua secretária, a do olhar fulminante.

            - A Monique - falei. Ele virou para me olhar, franzindo a sobrancelha.
            - A Monique é profissional. Além do que, ela não sabe.
            - Ela pode suspeitar - falei. - Ela pode ter ouvido alguma coisa, certo?
            - Mesmo se tivesse. Por que ela teria o trabalho de denunciar a gente?
            - Você viu o jeito como ela olha pra mim? Ela me odeia.
            - Ela não te odeia - Zac insistiu. - Não seja ridícula.
            - Não estou sendo ridícula! - insisti, levantando num pulo quase sem perceber e andando de um lado para o outro na sala. - Ela parece que quer me matar.
            - Ela nunca faria isso - ele rebateu. - Você precisa confiar no meu julgamento, Nessa.
            - Por quê? Quem disse que você é infalível?
            - Ninguém. Mas eu escolho as pessoas próximas a mim muito cuidadosamente. Nenhuma dessas pessoas ia trair minha confiança. Tenho certeza disso. – o encarei.
            - Então você está dizendo que deve ser alguém que eu conheço?
            - Eu não disse isso. - Ele levantou os braços, mostrando as mãos. - Disse?
            - Nem precisa. - Fiquei na frente dele, com os braços cruzados. - Só pra você saber, eu nunca disse uma palavra pra ninguém. Eu sou a pessoa mais solitária que eu conheço, porque eu não posso ser honesta com ninguém.
            - Você acha que eu gosto de mentir pra minha irmã? - Zac estourou. - Para de bancar a santinha. Você já não tinha nenhum amigo antes da gente se casar. Não pode colocar isso na minha conta. - enfureci em silêncio por um instante. – Desculpa - ele disse, por fim. - Nessa, desculpa. Eu não devia ter dito isso. Mas a gente precisa se acalmar. Isso não vai levar a nada.
            - Tudo bem - murmurei, sentando-me novamente. - Apesar de que a Monique parece uma idiota, desculpa.
            - Confia em mim - ele pediu - ela trabalha pra mim há bastante tempo. Sei que ela é meio rude, mas também sei do que ela não é capaz de fazer. E uma traição tão grande como essa não é coisa dela, mesmo se ela descobriu sobre a gente.
            - Então está certo. Tudo bem. - Respirei, devagar. - Quem mais pode ter desconfiado? Se a gente está eliminando todas as pessoas que realmente sabem.
            - Pode ter sido qualquer um, na verdade - ele disse. - Qualquer um do escritório pode ter olhado pra nós e decidido que a gente parecia suspeito, não temos como saber. Eu não faço ideia de como as coisas pode ter parecido pra alguém de fora da situação. Meu Deus, que pesadelo.

Ele parou, apoiando a cabeça nas mãos e passando os dedos pelo cabelo. Eu sabia como ele se sentia. Eu estava com os nervos à flor da pele.
Não havia absolutamente nada que eu pudesse dizer ou fazer para consolá-lo, ou a mim. Passamos o resto da tarde distraídos, procurando no Google várias coisas relacionadas ao nosso dilema e perambulando pelo apartamento, pegando coisas e deixando-as em locais aleatórios. Sentei-me em frente a uma folha de papel em branco por um tempo, com o carvão na mão, mas não consegui desenhar nada.
No final da tarde, a campainha tocou de novo. Não sei por que, mas meu coração quase saiu pela boca. Zac correu para atender. Estavam entregando um tipo de pacote. Fui até lá, lentamente, com os punhos cerrados. De alguma forma, eu sabia, mesmo antes de ele olhar para mim e eu ver o olhar assombrado em seus olhos.

            - O que é? - Estiquei a mão para pegar, e apesar de ele não ter entregado para mim, não tentou puxar para trás. Tinha vindo em um envelope de carta registrada. Era uma única folha de papel, digitada.
Peguei-a.

            “Desculpe-me.
            Fiz o que fiz num momento de raiva, e não devia ter feito isso, mas agora não pode ser desfeito.
            Contei ao pessoal da imigração o que vocês fizeram.
            Você pode imaginar como eu me senti quando ouvi dizer que você estava saindo com ela, dentre todas as pessoas. Eu não pensei direito, só queria extravasar, e queria não ter feito isso. Quando descobri que era uma farsa, não consegui acreditar na minha sorte, no início, e agi por instinto. Foi uma ideia terrível. Sinto muito.
            Não sei se eles já terão contatado vocês a essa altura, então não tenho certeza se isso é um aviso, ou apenas um pedido de desculpas. Espero que consigam convencê-los que menti sobre os dois. Não deve ser tão difícil. Sei que estarei encrencada, mas acho que nem ligo mais.
            Se estiver imaginando como eu sabia, você deve querer perguntar ao Sr. French. Ele tem uma queda por loiras e não guarda seus papeis com muito cuidado à noite, depois de ter bebido. Se eu fosse você, encontraria um novo advogado.
            Sinto muito, querido. Não pude evitar.
            Com todo o meu amor,
            Ashley


            - Ashley? - perguntei incrédula. Olhei para ele. Seu rosto disse tudo o que eu realmente precisava saber.

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Data especial, postagem especial!
O aniversário é dele, mas vocês recebem o presente!
2 capítulos pra vocês! Logo mais o próximo!!!

3 comentários:

  1. OMG
    Estou DESMAIADA com esse capítulo.
    Zachary, Zachary...o que o senhor andou aprontando?
    Ansiosa pelo próximo.
    Bjos

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  2. Aaaahhhh eu não acreditooo. Postaaa mais logoooo. Bjosss o capitulo ficou perfeitoo

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  3. ebaaaaa, posta maissss!!!! e agora o que sera que vai acontecer????

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